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domingo, 9 de agosto de 2026

IGREJA NOSSA SENHORA DO CARMO

 Guia Histórico: A Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Diamantina

Por Paulo Krüger Corrêa Mourão

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo representa o testemunho barroco mais expressivo herdado do século XVIII na antiga região tejuco-diamantinense. Ao adentrar o templo, o visitante é acolhido por uma atmosfera solene e inesquecível, marcada pelo equilíbrio e pela riqueza de suas pinturas de tons sóbrios.

DIAMANTINA HISTÓRICA: ARRAIAL DO TIJUCO - ATUAL DIAMANTINA- FONTE ...

Arquitetura e Talha do Altar-Mor

Típico da segunda fase do Barroco Mineiro, o altar-mor sobressai-se pelo retábulo encimado por dossel e sustentado por quatro colunas compostas de fuste liso. Sobre a cornija estrutural, detalhes ornamentais em voluta desdobram-se em curvas delicadas. Nos nichos ladeados pelas colunas, repousam esculturas sacras, enquanto a base da estrutura exibe entalhes dourados e motivos florais pintados a ouro. No trono central — singelo, rodeado por nuvens e querubins —, destaca-se a imagem da padroeira. O arco-cruzeiro e o topo do retábulo ostentam composições douradas alusivas ao Monte Carmelo.

A Genialidade de José Soares de Araújo

Um dos grandes trunfos da capela é o acervo pictórico assinado pelo guarda-mor José Soares de Araújo. O teto da nave traz uma imponente composição: Maria rodeada por anjos e santos, ladeada pela passagem bíblica do arrebatamento do profeta Elias e a entrega de sua capa a Eliseu. Em painéis complementares, figuram episódios como o milagre da multiplicação do azeite da viúva de Sarepta e o corvo nutrindo o profeta. No presbitério, contempla-se a entrega do escapulário a São Simão Stock. Todas as cenas são emolduradas por um impressionante trompe-l'œil arquitetônico em perspectiva, simulando janelas abertas para o céu.


Igreja do Carmo: a igreja da torre nos fundos ~ Conheça Minas

Registros Históricos e Mestres da Arte

A construção foi financiadas pelo influente contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, que formalizou a doação do templo à Ordem do Carmo em julho de 1765. Os trabalhos de pintura estenderam-se de 1765 a 1784, e o acervo instrumental ganhou destaque em 1778 com a instalação do órgão fabril encomendado ao Padre Manoel de Almeida e Silva. Entalhadores e decoradores de prestígio, como Agostinho Santos, Manoel Pinto e Francisco Antônio Lisboa, deixaram sua assinatura nas talhas do templo.

Patrimônio Musical e Singularidades

A tradição musical da igreja está intimamente associada a José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, proeminente compositor do Barroco Mineiro e organista da capela em 1789, ano da Inconfidência. A relevância de sua obra perdurou pelos séculos: sua Missa de Réquiem foi escolhida para homenagens fúnebres de personalidades históricas como o presidente Delfim Moreira (1921) e o jurista Rui Barbosa (1923).

Curiosamente, a igreja ostenta uma raridade arquitetônica: sua torre sineira foi edificada na parte posterior do templo (diz a tradição popular que a pedido da Chica da Silva, para evitar que o barulho dos sinos incomodasse a rotina do casarão vizinho). Por reunir arquitetura harmônica, ilusionismo pictórico e o esplendor da talha dourada, o Carmo permanece como um dos monumentos mais completos da arte colonial brasileira.

VOZ DE DIAMANTINA, PÁG.2, Nº 19, 6 DE MARÇO, DIAMANTINA/MG, 1971

CASA DO CONTRATO

 Guia do Turista em Diamantina

I – A Casa do Contrato

Paulo Krüger Corrêa Mourão

A "Casa do Contrato", hoje Palácio Arquiepiscopal, é um dos monumentos mais expressivos dentre os que evocam a movimentada história do Arraial do Tijuco.

Pena é que as sucessivas modificações que teve esse edifício, do século XVIII à centúria atual, houvessem alterado sua feição primitiva. Contudo, uma fotografia antiga mostra a aparência que deve ter tido, quiçá bem mais consentânea com o que fora esse palácio em dias de 1700.

O Patrimônio Histórico, retirando superposições de mau gosto de muitos anos atrás, restaurou a Casa do Contrato à sua possível fisionomia dos tempos dos Contratadores. Mas as grades de ferro das sacadas não deveriam ser setecentistas, quando seriam possivelmente de madeira.


Palácio do Bispo (Diamantina, MG) | Enciclopédia Itaú Cultural

Os contratos celebrados entre particulares e a Coroa Real para a extração dos diamantes obedeceram à seguinte ordem: O primeiro contrato, que coube a João Fernandes de Oliveira e um sócio, decorreu de 1º de Janeiro de 1740 até 31 de dezembro de 1743. O segundo contrato foi renovado aos mesmos e durou até 1747.

O terceiro coube a Felisberto Caldeira Brant, com três irmãos, sendo iniciado em 1º de janeiro de 1748, indo até 1751; quando foi prorrogado até os graves acontecimentos que serão relatados mais adiante, começados na Semana Santa de 1752.

O novo contrato foi com João Fernandes de Oliveira novamente. Seguiu-se o que foi celebrado com o seu filho, desembargador de igual nome.

A prorrogação do terceiro contrato ficou marcada na história do Tijuco por acontecimentos dolorosos. Felisberto Caldeira Brant, embora enriquecido como um nababo na extração dos diamantes, veio entretanto a cair em desgraça em consequência da altivez com que repeliu o gesto leviano do ouvidor da Vila do Príncipe, Dr. José Pinto Morais Bacelar que, na igreja de Santo Antônio, ousou atirar uma flor ao colo de uma senhorita parente do contratador. Lutando Felisberto com essa autoridade na saída do templo, teve a simpatia do povo, porém provocou a perseguição do Intendente dos Diamantes Sancho de Andrade e Castro Lauções. Aproveitando-se de um alcance momentâneo de Felisberto com a Coroa Portuguesa, a autoridade mandou prendê-lo e remeter à Lisboa, recolhido à prisão do Limoeiro, até que esta desmoronou em consequência do terremoto de 1755. Apresentando-se ele ao Marquês de Pombal, prometeu este mandar rever-lhe o processo, o que entretanto não o aproveitou por ter falecido antes.

Outro contratador afamado foi o desembargador João Fernandes de Oliveira, que tinha por companheira a famigerada Chica da Silva. A vida de fausto destes será referida, nesta série, em outro monumento ainda existente em Diamantina.

No século passado, a Casa do Contrato foi sede do afamado Ateneu São Vicente de Paulo, inaugurado em 1853, sob a direção do Côn. João Antônio dos Santos, posteriormente o primeiro Bispo de Diamantina. No mesmo prédio funcionou o seminário em 1867 sob a direção provisória do Subdiácono Alves de Mesquita, antes da chegada dos Padres Lazaristas.

Quando o Seminário passou à sua sede definitiva, no antigo Largo do Curral, a Casa do Contrato veio a ser Palácio Episcopal. Em 1917, Diamantina foi elevada a Arcebispado, aí continuando a residência dos prelados com a denominação de Palácio Episcopal.

A Bula que criou o bispado de Diamantina foi a "Gravissimum Sollicitudinis" do Papa Pio IX. O primeiro Bispo, Dom João Antônio dos Santos, foi sagrado em 12 de março de 1864, por Dom Viçoso. Sucedeu-lhe seu coadjutor, D. Joaquim Silvério de Souza, após a morte de D. João em 1905. Elevando-se Diamantina a Arcebispado, o Pálio foi imposto a D. Joaquim em outubro de 1917. Os que sucederam a D. Joaquim como Arcebispos foram: D. Serafim Gomes Jardim, D. Newton José de Almeida Baptista e D. Geraldo de Proença Sigaud, que é o atual antístite.

Versão Reescrita e Fluida (Texto Melhorado)

GUIA DO TURISTA EM DIAMANTINA

I – A Casa do Contrato

Paulo Krüger Corrêa Mourão

A Casa do Contrato — hoje conhecida como Palácio Arquiepiscopal — é um dos monumentos mais emblemáticos da história do antigo Arraial do Tijuco. Embora as reformas realizadas entre o século XVIII e o século XX tenham alterado sua arquitetura original, fotografias antigas registram a imponência do edifício setecentista. Durante a restauração promovida pelo Patrimônio Histórico, foram removidas alterações inadequadas para resgatar a fisionomia do período dos Contratadores (embora as atuais sacadas de ferro tenham sido, originalmente, feitas em madeira).


A Era dos Contratadores de Diamantes

O regime de exploração diamantífera por meio de contratos com a Coroa Portuguesa seguiu a seguinte cronologia:


1º e 2º Contratos (1740–1747): Concedidos a João Fernandes de Oliveira e seu sócio.


3º Contrato (1748–1751): Arrendado por Felisberto Caldeira Brant e seus três irmãos, sendo posteriormente prorrogado.


Contratos Seguintes: Retornaram às mãos de João Fernandes de Oliveira e, mais tarde, passaram ao seu filho homônimo, o Desembargador João Fernandes de Oliveira.


O Trágico Destino de Felisberto Caldeira Brant

A prorrogação do terceiro contrato foi marcada por um grave conflito no Tijuco. Apesar da imensa fortuna acumulada com os diamantes, Felisberto Caldeira Brant caiu em desgraça política após sair em defesa da honra de sua família. O episódio ocorreu na Igreja de Santo Antônio, quando o ouvidor da Vila do Príncipe, Dr. José Pinto Morais Bacelar, jogou de forma desrespeitosa uma flor no colo de uma jovem parente do contratador.


A altercação na saída do templo garantiu a Felisberto o apoio da população, mas atiçou a ira do Intendente dos Diamantes, Sancho de Andrade e Castro Lauções. Usando como pretexto uma pendência financeira de Brant com a Coroa, o Intendente ordenou sua prisão e o enviou para Lisboa, onde foi encarcerado na Cadeia do Limoeiro. Durante o devastador Terremoto de Lisboa (1755), a prisão desabou. Livre, Felisberto recorreu ao Marquês de Pombal, que prometeu revisar seu processo; contudo, o contratador faleceu antes de ver sua reputação reabilitada.


Entre os administradores do monopólio, destaca-se também o Desembargador João Fernandes de Oliveira, famoso por sua união com Chica da Silva, cuja vida de opulência será detalhada no capítulo dedicado a outro monumento histórico da cidade.


Mudanças de Uso: De Sede Educacional a Palácio Episcopal

Ao longo do século XIX e XX, a Casa do Contrato assumiu novas funções de relevância social e religiosa:


1853: Abrigou o Ateneu São Vicente de Paulo, fundado pelo Cônego João Antônio dos Santos.


1867: Sediou temporariamente o Seminário, sob a direção do Subdiácono Alves de Mesquita, antes da instalação definitiva dos Padres Lazaristas no antigo Largo do Curral.


Sede Episcopal e Arquiepiscopal: Com a transferência do Seminário, o prédio passou a ser o Palácio Episcopal.


O Bispado de Diamantina foi oficializado pela bula "Gravissimum Sollicitudinis", do Papa Pio IX. Dom João Antônio dos Santos tornou-se seu primeiro Bispo, sagrado em 1864 por Dom Viçoso. Com o falecimento de Dom João em 1905, assumiu seu coadjutor, Dom Joaquim Silvério de Souza. Em 1917, quando Diamantina foi elevada à dignidade de Arcebispado, Dom Joaquim tornou-se seu primeiro Arcebispo, sucedido posteriormente por Dom Serafim Gomes Jardim, Dom Newton José de Almeida Baptista e Dom Geraldo de Proença Sigaud (atual arcebispo).

VOZ DE DIAMANTINA, PÁG.1, Nº18, 28 DE FEVEREIRO, DIAMANTINA/MG, 1971.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

 

 

O Barroco na América Portuguesa: Novos Olhares

Modelos iconográficos da deposição de Cristo e das Sibilas nas Minas Gerais do século XVIII: propaganda político-religiosa e persuasão na América Portuguesa

Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Brasil

mariaclaudiamagnani@gmail.comhttps://orcid.org/0000-0003-0261-7023

As pinturas da Igreja de Nosso Senhor do Bonfim em Diamantina, Minas Gerais, Brasil, trazem um tema intrigante e único na colônia portuguesa da América: quatro sibilas contornando o quadro da deposição da cruz. As profetisas estão representada sem meio corpo, em quadros entre colunas paraníncas figurando cariátides, e sobre cada quadro, há um medalhão seguro por um querubim trazendo os seus nomes: Délca, Líbica, Frígia eTiburtina. Setecentistas, as pinturas foram atribuídas a Silvestre de Almeida Lopes, pintor nascido na colônia e que teria aprendido o ofício com o bracarense José Soares de Araújo

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1. MIRANDA, Selma Melo & SANTOS, Antônio Fernando Batista dos.

Artistas Pintores do Distrito Diamantino: revendo atribuições.

Comunicação apresentada ao Colóquio de História da ArteLuso-brasileira, Salvador, 1997.Fig. 1. Abóboda da Capela de Nosso Senhor do Bonfim em Diamantina. Fonte: Foto de Bernardo Magalhães, 2019.



Modelos iconográficos da deposição de Cristo e das Sibilas nas Minas Gerais do século XVIII- M. C. A. O. Magnani

Sobre o templo não foram identificados quaisquer documentos que nos pudessem informar sobre qual irmandade abrigava, quem seriam os irmãos, quando foi construído, quem seriam os responsáveis pelas pinturas, talhas, imaginária. A única menção ao templo encontrada no século XVIII está na documentação da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, hoje no AEAD – Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Diamantina e citada por Machado Filho:

Os homens crioulos faziam parte da Irmandade de N. Senhora do Rosário dos Pretos. Dela, porém se desincorporaram e fizeram, esta Separação indeCorosamente Com palavras menos descentes dizendo ser esta hua irmde. De Negros“ ...Conseguiram, interinamente, para sua irmandade o altar do Senhor dos Passos na Capela do Senhor do Bonfim, onde, em 16 de janeiro de 1780,deram posse aos mesários, depois de estarem estabelecidos emSanto Antônio do Tijuco desde a data de 2 de settembro de 1772.

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Por este documento pode-se apenas inferir que a capela já existia no ano de 1780, uma vez que recebia então, temporariamente, os “homens crioulos” expulsos da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e que criaram a confraria de Nossa Senhora das Mercês. O quadro central com a deposição, contornado por quadratura, faz parte de uma totalidade na qual se misturam o tema sofisticado das sibilas, das figuras paraníncas e a técnica ilusionista da arquitetura fingida com a pintura quase naïf   do pintor colonial. Em Portugal como na colônia, a estrutura de falsa arquitetura não era realizada por um quadro escorçado, em perspectiva. O uso da perspectiva manteve aí uma função de narrativa historiada em contraposição ao espetáculo próprio da quadratura romana (como nas pinturas dos tetos feitas por...

2. MACHADO FILHO, Aires da Mata.

Arraial do Tijuco Cidade Diamantina 

. Belo Horizonte: LivrariaItatiaia; São Paulo: Edusp, 1980, p. 247

Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani

Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Brasil

mariaclaudiamagnani@gmail.comhttps://orcid.org/0000-0003-0261-702


 

terça-feira, 28 de junho de 2022

BANDA DO SAPO SECO

 

VEM AÍ: DESAFINADO – INFO 21

De longa data, havia em Diamantina o costume da realização de bailes pelas famílias locais, em suas residências. Esses bailes ganharam um espaço público, quando Diamantina foi contemplada com o prédio mais amplo do antigo Teatro Santa Isabel. Por força de sua finalidade primordial de levantar recursos para a Santa Casa de Caridade, o teatro passou a ser arrendado para a realização de atividades recreativas, culturais, cívicas, sociais e políticas, de forma simultânea à sua função precípua de abrigar a dramaturgia. Destarte, um ano após o teatro ter sido franqueado ao público, Valeriano Ferreira de Araújo utilizou suas dependências para promover bailes de máscaras durante o carnaval de 1862 e por mais três ocasiões distintas naquele ano, reproduzindo evento em moda, no carnaval do Rio de Janeiro, há mais de duas décadas.

Até então, predominava no carnaval diamantinense a prática da brincadeira do entrudo, herdada dos portugueses nos tempos coloniais. De forma mais obstinada, faziam parte da diversão os famosos limões de água de cheiro: uma bola de cera no formato de uma laranja contendo água perfumada, que as pessoas atiravam umas nas outras.

A partir da realização dos bailes de máscaras no teatro, iniciou-se um processo de organização do carnaval em Diamantina, criando-se a expectativa de se eliminarem os costumes do entrudo, considerado, por muitos, uma brincadeira perigosa, estúpida e de extremo mau gosto.



Nos primeiros anos de ordenação dos folguedos carnavalescos, tornou-se tradição vários grupos de pessoas, com fantasias e máscaras diversas, invadirem as ruas no período da tarde, fazendo verdadeira algazarra durante os três dias de folia. Concentravam-se em frente ao Teatro Santa Isabel, por volta das 16 horas, onde era organizada uma passeata que desfilava pelas ruas centrais da cidade, deslocando-se até o final da Rua Macau do Meio e retornando ao teatro. Anunciado por clarins, o cortejo seguia, tendo à frente quatro negros possantes carregando uma padiola, encimada por Procópio Gomes Ribeiro fantasiado de Baco, o deus do vinho e senhor dos ébrios, assentado em uma pipa enfeitada por folhagens e parreiras com cachos de uvas. Vestido com uma túnica de seda cor-de-rosa, máscara de arame, Procópio seguia sorridente, empunhando um tirso na mão esquerda e, na direita, um ramalhete de flores, com que atirava beijos e saudava as pessoas. Logo atrás, perfilavam-se as representações de outras divindades mitológicas, como Júpiter, Juno, Mercúrio, Vênus, Minerva, Netuno, Anfitrite, em carros puxados por cavalos de crinas douradas. Na sequência, uma banda de música local, seguida pelo povo, com suas fantasias e máscaras. No regresso, abriam-se as portas do Teatro Santa Isabel, para o baile de fantasias.

Entrementes, nem todas as pessoas podiam, ou não queriam algumas, utilizar as fantasias tradicionais, daí o surgimento de um bloco de sujos, desde o final do século XIX, que se organizou com o passar dos tempos. Mais estruturados, esses foliões começaram a ser acompanhados por uma banda de música, meio desordenada ainda, desde o início da década de 1920. Participava dessa algazarra um grupo de amigos caçadores, vestidos com trapos e couros de animais, entre os quais se destacavam Elias Luiz de Carvalho, Ursine Soares de Oliveira, Joaquim de Sousa Spíndola, Abelardo de Araújo Andrade, José Lopes de Figueiredo, João Batista Diniz Júnior, José Cyrillo e um negro chamado Anastácio. Em uma de suas caçadas, realizada em meados da década de 1930, conversando sobre as inovações que deveriam fazer para melhor organização de seu grupo carnavalesco, acharam por bem escolher um nome para o bloco de sujos. Foi quando um deles convocou, para participar da conversa, o companheiro Elias Luiz de Carvalho, que se encontrava afastado do grupo no momento, chamando-o pelo apelido que Elias herdara do pai: “Sapo Seco”: “Ô, Sapo Seco, estamos precisando de sua opinião aqui!” Ato contínuo, por aclamação unânime, nasceu o nome para o bloco de sujos, consolidado, a partir de então, como Banda do Sapo Seco.

No início da década de 1950, os antigos organizadores da Banda do Sapo Seco, em decorrência de sua idade um pouco avançada, repassaram o comando do bloco caricato a um grupo de foliões mais novos. Entre os principais elementos que assumiram sua direção, destacaram-se Paulo Clementino da Silva (Paulo Soim), José Corsino Dias (Zé Coquinho), Alencar dos Reis Aguilar (Chumbinho) e Alberto Guedes da Silva.

No carnaval de 1968, ocorreu uma dissidência na Banda do Sapo Seco. Parte da turma mais velha, capitaneada por Paulo Soim e Zé Coquinho, desligou-se da Banda do Sapo Seco para montar a Banda do Peixe Vivo, que estreou no carnaval de 1969, nos mesmos moldes de sua correlata. O novo bloco caricato manteve o costume de se fazerem alegorias voltadas para a produção de charges simulando costumes da cidade, criticando instituições, ideias ou atitudes inconvenientes, ironizando ou satirizando acontecimentos diversos. Tradicionalmente, a Banda do Sapo Seco sempre fazia encenações quando atingia a Rua da Quitanda, em sua escalada rumo ao Largo Dom João, como ilustração perfeita do antigo bordão do teatrólogo português Gil Vicente: Ridendo castigat mores. (Rindo, castigam-se os costumes).

Mas, em decorrência da dissidência, a Banda do Sapo Seco foi obrigada a se reinventar. A perda de Paulo Soim incidia diretamente no centro de pensamento para definição das sátiras, das encenações críticas e para a confecção das alegorias e das máscaras. Essa função foi assumida por Antônio Paixão da Conceição e Mundico Mocó. Eram auxiliados por Antônio Macedo de Siqueira (Antônio Boli), responsável por toda adaptação elétrica necessária, e por Geraldo Dirceu Duarte (Lais), a quem ficou reservada a tarefa de conseguir toda a matéria-prima para as confecções. Grande parte das vestimentas era confeccionada com sacos de estopa, costurados, habitualmente, pela mãe de Mundico Mocó.

Foto: Monstros humanos da pré história

Antônio Paixão e Antônio Boli / início década de 1970

Acervo: Antônio Paixão da Conceição

 

 

GLAMOUR DOS ANOS DOURADOS

 

Wander Conceição

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VEM AÍ: DESAFINADO – INFO 23 – GLAMOUR DOS ANOS DOURADOS

Em 1952, senador da República eleito pelo Estado da Paraíba, Assis Chateaubriand resolveu divulgar, na França, o tecido de algodão brasileiro, praticamente desconhecido na Europa. Espelhara-se no desfile beneficente, ocorrido no ano anterior, com vestidos da Fábrica de Tecidos Bangu, realizado no Hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. O evento foi promovido por Candinha Silveira, esposa de Joaquim Guilherme da Silveira, diretor-geral da fábrica. O sucesso do desfile havia aumentado o prestígio dos produtos daquela fábrica no Brasil e ajudado a popularizar o uso do tecido de algodão.

Chateaubriand expôs seu propósito ao estilista Jacques Fath, um dos mais destacados nomes da alta-costura francesa, que se encantou com a ideia. Jacques desenhou diversos vestidos de gala, que foram confeccionados com tecidos de algodão da Fábrica Bangu, para mulheres pertencentes à alta sociedade do Rio de Janeiro e de São Paulo. Elas seguiram para a França, onde participaram de uma festa realizada no Castelo de Coberville, localizado nas imediações de Paris, acontecimento que contou com a presença de convidados importantes da Europa e de vários astros de Hollywood, repercutindo nos principais jornais e revistas franceses.


Diante do sucesso do evento, Jacques Fath gostou imensamente do trabalho e resolveu seguir para o Rio de Janeiro, onde desenhou vestidos que foram confeccionados com tecidos de algodão da Fábrica Bangu, especificamente para novo desfile promovido no Copacabana Palace. Logo em seguida, o Desfile Bangu se repetiu em São Paulo, Salvador e se espalhou por outras capitais do Brasil. Surgiram, assim, os concursos nacionais “Miss Elegante Bangu”, sempre realizados no Copacabana Palace, anualmente, transmitidos ao vivo pela Rádio Nacional, com grande cobertura da imprensa. Em Belo Horizonte, o Desfile Bangu era realizado no salão de gala do Automóvel Clube.

Em meados daquela década, Mário Ângelo de Miranda, diretor social do Clube Acayaca, sempre passava férias no Rio de Janeiro, em casa de amigos. Atento às novidades de mercado, como lhe era peculiar, viu as reportagens sobre o famoso desfile. Enviou um ofício do Clube Acayaca para a organização do evento, solicitando a colocação de Diamantina no roteiro. Foi prontamente atendido. Passaram a enviar para o Clube Acayaca os tecidos Bangu e os modelos dos vestidos, desenhados pelo famoso estilista carioca, José Ronaldo. Mário Ângelo escolhia as moças consideradas mais bonitas e elegantes da sociedade local, grande parte delas pertencente ao famoso “Grupo das Aflitas”, a quem repassava tecido e modelo. Depois, ele seguia para Belo Horizonte, onde comprava os detalhes dos modelos, sapatos e luvas. Tomadas essas providências, acontecia o desfile no Clube Acayaca, com a eleição da “Miss Elegante Bangu” diamantinense.

Foto: Desfile Bangu no Clube Acayaca

Giselma Pádua eleita Miss Elegante Bangu

Acervo: Mário Ângelo de Miranda

VEM AÍ: DESAFINADO - INFO-22

 

Wander Conceição

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VEM AÍ: DESAFINADO – INFO 22

Em 1938, aconteceu a extinção do Flamengo Futebol Clube, cujos sócios haviam alugado a parte superior do prédio do Ponto Chic na Rua da Quitanda, onde instalaram sua sede social. No vasto salão daquele prédio, promoviam bailes diversos. Os proprietários do Ponto Chic aproveitaram o encerramento do contrato de aluguel para realizar uma reforma no imóvel, no ano seguinte. Exatamente em julho de 1938, ocorreu a primeira grande reforma no Cine Trianon, quando foram fixadas poltronas modernas no chão, em substituição às cadeiras de treliça de palha que eram retiradas para realização dos bailes. Assim, em 1939, a cidade ficou sem os dois melhores salões, onde aconteciam os bailes de carnaval, habitualmente.

Diante dessa situação, um grupo de amigos, composto por Sóter Pádua de Oliveira, Armando Alves Horta, Oswaldo César Pereira da Silva, João Vicente Diniz, Milton Guieiro e suas respectivas esposas, resolveu passar o carnaval de 1939, em Belo Horizonte. Ainda dentro do Trem de Ferro, na viagem de ida, inconformados com a situação a que chegara Diamantina de não possuir um clube social, decidiram que, ao voltarem, reuniriam um número significativo de pessoas, emitiriam cotas e levantariam o recurso para comprar um prédio grande na cidade e adaptá-lo. Organizaram uma sociedade, posteriormente, e compraram o prédio de Arminda Guerra Leite, situado na Rua da Quitanda, nº. 23, em janeiro de 1941. O prédio ganhou um salão vasto, após as reformas necessárias. No Sábado de Aleluia daquele ano, 12 de abril, inaugurava-se o Clube Acayaca em Diamantina.

Ocorreu, porém, que seus associados foram escolhidos apenas entre as pessoas que pertenciam ao mais alto escalão da plutocracia local, cuja consequência imediata foi a preocupação excessiva com a demonstração de luxo e de hábitos aristocráticos. E desde o seu surgimento, embora não fosse regra estatutária explícita, a diretoria do Clube Acayaca não aceitava que negros fizessem parte de seus quadros sociais.


Solidários à causa de outras classes sociais, como funcionários públicos, professores, militares etc, os funcionários da Diretoria Regional de Correios e Telégrafos de Diamantina, tendo Lahyre Moreira da Silva à frente do movimento, arregimentaram vários comerciantes, também afeitos à mesma causa, e fundaram outro clube social que pudesse abrigar o cidadão diamantinense menos abastado. Assim, em 19 de março de 1944, ocorreu a fundação do Clube União Democrata e a eleição de sua primeira diretoria. Emitidas as cotas, foi adquirido o prédio de três andares, situado na Rua Direita, nº. 120, e iniciadas as obras de adaptação da sede social, no segundo andar. Sua inauguração oficial aconteceu em 2 de março de 1945.

Apesar do seu objetivo inicial de expandir o entretenimento social para outras camadas mais populares da sociedade diamantinense, o Clube União Democrata teve vida útil muito curta. Em maio de 1947, os sócios-proprietários alteraram os artigos 55 e 65 do estatuto do clube, abrindo a possibilidade de aquisição ilimitada de cotas para seus associados. Alguns sócios de poder aquisitivo mais alto adquiriram a maioria das cotas, colocaram o prédio à venda em janeiro de 1949 e fecharam as portas do Clube União Democrata, encerrando sua vida associativa.

A expansão de possibilidades de entretenimento em Diamantina voltara à estaca zero. Sem opção de diversão na cidade, um grupo de funcionários dos Correios e Telégrafos adquiriu o hábito de se reunir nas escadarias da Catedral Metropolitana para uma boa prosa, após o passeio pela capistrana, momento em que a rua se esvaziava. Os mais frequentes eram Mauro José Coelho, Walter Cardoso França, Cesário Matias de Almeida, Antônio de Jesus Santos (Antônio Marreco) e Heber Neves. Incomodados com aquela situação, resolveram fundar um clube social, para que os funcionários dos Correios e Telégrafos pudessem frequentá-lo. Assim definido, procuraram Lahyre Moreira da Silva, em razão de seu alto prestígio na cidade, que aceitou, prontamente, encabeçar o movimento. Um abaixo-assinado, com 172 pessoas aderindo à iniciativa, foi emitido em 27 de fevereiro de 1958.

Em 21 de novembro de 1959, foi inaugurado o Clube ASSEDI (Associação dos Servidores Públicos Civis de Diamantina), que funcionou, inicialmente, em um casarão alugado, estabelecido atrás do Mercado Velho, esquina das atuais ruas Espírito Santo com Joaquim Costa. Iniciou-se o trabalho de emissão de ações para aquisição da sede própria. Para evitar situação semelhante à que envolvera o antigo Clube União Democrata, provocando sua dissolução, fizeram constar em estatuto que nenhum sócio teria o direito de adquirir mais de cinco ações. A sede foi levantada num terreno adquirido no início do Beco do Isidoro, próximo à Igreja do Rosário. O novo clube foi aberto aos trabalhadores, em geral, mas predominavam os funcionários públicos e militares em seu quadro de sócios, desfrutando de uma programação muito similar à do Clube Acayaca, durante todo o ano.

Além da Assedi, ergueu-se em Diamantina também um clube social na Praça de Esportes, que fora inaugurada em 1944, sem sede social. A ascensão de Juscelino Kubitschek ao governo estadual possibilitou o avanço de negociações para aquisição da cobiçada sede. Em meados de 1952, procurado por uma comissão incumbida de tal fim, o governador recorreu ao seu amigo Oscar Niemeyer. A inauguração da sede social do Diamantina Tênis Clube se deu em dezembro de 1960, com suas portas sendo abertas a todos os associados, sem discriminação.

Foto 1: Interior do Clube Acayaca

Acervo: Photo Assis

Foto 2: Sede Social do DTC

Acervo: Edméa Neves Andrade

 

VEM AÍ DESAFINADO: INFO 29

 Durante a década de 1960, o ponto de convergência dos jovens de Diamantina era a Praça de Esportes, tendo Anatólio Alves de Assis como conselheiro e a grande referência moral e ética. Havia uma dificuldade de diálogo dos jovens com os pais, especialmente, numa sociedade estruturada sob valores de extremo conservadorismo. Com a intenção de minimizar essa situação, nasceu o Clube União dos Adolescentes (CUA), como uma extensão das ações de Anatólio, que palestrava para a juventude, na Praça de Esportes, discorrendo sobre comportamentos, família, disciplina, respeito, cumprimento de horários etc.

Erimar Miguel Pires era um jovem bastante empreendedor. Na primeira metade daquela década, ele teve a iniciativa de fundar esse clube, por meio do qual se promoveriam reuniões de confraternização e congraçamento de jovens do sexo masculino. As reuniões eram semanais, ocorriam na casa de um dos sócios ou na sede da Praça de Esportes. Havia também as reuniões bimestrais, para as quais personalidades proeminentes na cidade eram convidadas a ministrar palestras no clube, sobre aconselhamentos, civismo, cultura, experiências de vida. Nos mesmos moldes do CUA, nasceu o Clube Recreativo Juvenil (CRJ), que reunia jovens do sexo feminino, liderado por Rozanne e Ayrde Assis, filhas de Anatólio.
Naquela época, para tocar um dos bailes promovidos para a juventude na Praça de Esportes, foi contratado o conjunto “Corinthian’s Boys”, da cidade de Corinto (MG). Era a primeira vez que Wanderlei Guedes da Silva, José Domingos Pereira (Duminguim) e Eustáquio Soares, membros do CUA, ouviam uma banda naquele padrão, ao vivo. Amigos afetivos, companheiros de serenatas, já tocavam violão, mas foi um deleite ver as guitarras e o contrabaixo elétrico. Os três rapazes do CUA ouviam a música moderna nas rádios, gêneros como o twist e o hully gully, além de que estavam encantados com a música dos Beatles, que acabara de entrar no Brasil, fazendo um sucesso fenomenal. Resolveram fundar um conjunto similar ao “Corinthian’s Boys”.
Havia uma bateria, com poucas peças, pertencente à Praça de Esportes, que foi prontamente cedida aos rapazes por Anatólio. Dessa forma, nasceu “Os Diamantinos”, primeiro conjunto moderno que surgiu na cidade, com os seguintes elementos: Wanderlei Guedes, contrabaixo; Romário Vieira, guitarra base; Duminguim, guitarra solo; Eustáquio Soares, bateria. O CUA bancou as primeiras despesas, pois possuía uma pequena reserva financeira, obtida por meio da cobrança de mensalidades e de algumas promoções que eram feitas para angariar fundos. O restante foi sendo liquidado em prestações, com a arrecadação proporcionada pelos bailes.
O conjunto “Os Diamantinos” se transformou posteriormente em “Os Jetsons”, pois o “chique” da época era denominar os conjuntos com uma palavra inglesa. No encalço de seu entusiasmo, nasceram os conjuntos “Le Cherry”, que recebeu depois o nome “The Flyers”; “Carcará”, que passou a se chamar “Thunderball”; “Comandante Sudário”, que se transformou em “Os Continentais”; “The Trump’s”; “Os Invasores”; “Som W1” e “Som W2”, que se fundiram posteriormente e formaram o “Batuka”; “The Tijucan’s Boys”; “Los Hermanos”; e “The Beatles Girls”, um conjunto formado somente por mulheres.
Todos esses conjuntos modernos, que embalaram as noites da juventude daquele tempo, foram influenciados, de forma vigorosa, pela Jovem Guarda, um movimento musical surgido em agosto de 1965, a partir de um programa televisivo homônimo, exibido pela TV Record, em São Paulo. A Jovem Guarda absorveu o Iê-iê-iê brasileiro, filho direto da influência do rock introduzido pelos Beatles e pelos Rolling Stones, e deu origem a uma linguagem musical nova, carregada de alegria e de descontração.
Foto 1: Membros do CUA na década de 1960
Desfile de 7 de setembro / Praça JK
Acervo: Wanderlei Guedes da Silva
Foto 2: Conjunto “Os Jetsons”
Depois de sua fusão com o “The Flyers”
[Da esq. p/ dir.] Leônidas Azevedo, Duminguim, Antônio Claret, Wanderlei Guedes, Zezé Quati, Tytoca.
Acervo: Wanderlei Guedes da Silva
Nara Moraes Moraes, Vinícius Santana e outras 53 pessoas
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