Guia Histórico: A Igreja de Nossa Senhora do Carmo de Diamantina
Por Paulo Krüger Corrêa Mourão
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo representa o testemunho barroco mais expressivo herdado do século XVIII na antiga região tejuco-diamantinense. Ao adentrar o templo, o visitante é acolhido por uma atmosfera solene e inesquecível, marcada pelo equilíbrio e pela riqueza de suas pinturas de tons sóbrios.
Arquitetura e Talha do Altar-Mor
Típico da segunda fase do Barroco Mineiro, o altar-mor sobressai-se pelo retábulo encimado por dossel e sustentado por quatro colunas compostas de fuste liso. Sobre a cornija estrutural, detalhes ornamentais em voluta desdobram-se em curvas delicadas. Nos nichos ladeados pelas colunas, repousam esculturas sacras, enquanto a base da estrutura exibe entalhes dourados e motivos florais pintados a ouro. No trono central — singelo, rodeado por nuvens e querubins —, destaca-se a imagem da padroeira. O arco-cruzeiro e o topo do retábulo ostentam composições douradas alusivas ao Monte Carmelo.
A Genialidade de José Soares de Araújo
Um dos grandes trunfos da capela é o acervo pictórico assinado pelo guarda-mor José Soares de Araújo. O teto da nave traz uma imponente composição: Maria rodeada por anjos e santos, ladeada pela passagem bíblica do arrebatamento do profeta Elias e a entrega de sua capa a Eliseu. Em painéis complementares, figuram episódios como o milagre da multiplicação do azeite da viúva de Sarepta e o corvo nutrindo o profeta. No presbitério, contempla-se a entrega do escapulário a São Simão Stock. Todas as cenas são emolduradas por um impressionante trompe-l'œil arquitetônico em perspectiva, simulando janelas abertas para o céu.
Registros Históricos e Mestres da Arte
A construção foi financiadas pelo influente contratador de diamantes, João Fernandes de Oliveira, que formalizou a doação do templo à Ordem do Carmo em julho de 1765. Os trabalhos de pintura estenderam-se de 1765 a 1784, e o acervo instrumental ganhou destaque em 1778 com a instalação do órgão fabril encomendado ao Padre Manoel de Almeida e Silva. Entalhadores e decoradores de prestígio, como Agostinho Santos, Manoel Pinto e Francisco Antônio Lisboa, deixaram sua assinatura nas talhas do templo.
Patrimônio Musical e Singularidades
A tradição musical da igreja está intimamente associada a José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, proeminente compositor do Barroco Mineiro e organista da capela em 1789, ano da Inconfidência. A relevância de sua obra perdurou pelos séculos: sua Missa de Réquiem foi escolhida para homenagens fúnebres de personalidades históricas como o presidente Delfim Moreira (1921) e o jurista Rui Barbosa (1923).
Curiosamente, a igreja ostenta uma raridade arquitetônica: sua torre sineira foi edificada na parte posterior do templo (diz a tradição popular que a pedido da Chica da Silva, para evitar que o barulho dos sinos incomodasse a rotina do casarão vizinho). Por reunir arquitetura harmônica, ilusionismo pictórico e o esplendor da talha dourada, o Carmo permanece como um dos monumentos mais completos da arte colonial brasileira.
VOZ DE DIAMANTINA, PÁG.2, Nº 19, 6 DE MARÇO, DIAMANTINA/MG, 1971
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