O CAVALEIRO DA LUZ
ERICK JOHAN NS DE MEIRA
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A |
Lenda Fantasmagórica de Diamantina — Um
Romance de Amor, Morte e Maldição
Romance
histórico sobrenatural ambientado em Diamantina no final do século XIX.
Quando
o Sino do Carmo Chora Meia-Noite
Dizem
os antigos moradores de Diamantina que toda cidade possui uma alma. Algumas
vivem escondidas nas pedras das ladeiras. Outras dormem debaixo das igrejas. Mas
existe uma que cavalga. Ela surge quando a quaresma cobre a cidade com o manto
do silêncio. Quando os lampiões vacilam ao vento frio da Serra dos Cristais.
Quando ninguém ousa permanecer sozinho nas ruas depois da meia-noite.
Nesse
instante...
O
relógio da Igreja do Carmo toca doze badaladas.
TANG...
TANG... TANG...
Cada
badalada parece abrir uma porta entre o mundo dos vivos e dos mortos.
Então
escuta-se um som impossível.
CLANC...
CLINC... CLANC... CLINC...
Uma
ferradura bate diferente das outras. Uma delas está solta. É o Cavaleiro da
Luz. E quem ouvir sua passagem jamais esquecerá. Porque ele não procura
riquezas. Não procura vingança. Procura sua noiva.
A
mulher que morreu no dia do casamento. E dizem... Que até hoje ela o espera nas
carneiras da Igreja do Rosário.
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D |
iamantina
ainda era conhecida por muitos como Arraial do Tijuco.
Era
uma cidade de ouro, diamantes e pecados.
Naquela
tarde de abril de 1891, toda cidade celebrava um casamento.
O
noivo chamava-se Gabriel de Alencastro.
Oficial
da Guarda dos Dragões.
Conhecido
pelo uniforme impecável e pelo cavalo branco chamado Luzeiro.
A
noiva era Cecília das Mercês.
Filha
de um antigo músico da Igreja do Rosário. Tinha cabelos negros como a noite sem
estrelas e olhos da cor das águas do Biribiri.
Diziam
que quando ela cantava durante as procissões, até os sinos pareciam responder.
O
casamento seria celebrado ao entardecer.
A
igreja estava repleta.
Velas
iluminavam o altar.
As
mulheres usavam vestidos rendados.
Os
homens vestiam casacas.
O
perfume de flores de laranjeira tomava conta da nave.
Quando
Cecília entrou...
Gabriel
esqueceu o mundo.
Ela
parecia um anjo.
Mas
naquele instante...
Uma
rajada de vento apagou metade das velas.
O
padre interrompeu a cerimônia.
Um
cachorro começou a uivar do lado de fora.
E
uma velha negra, sentada perto da porta, sussurrou:
—
Não deixem esse casamento terminar... hoje os mortos caminham.
Ninguém
lhe deu atenção.
Foi
o maior erro daquela cidade.
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o
momento em que Gabriel colocou a aliança...
Cecília
levou a mão ao peito.
Seus
olhos se arregalaram.
O
sorriso desapareceu.
Ela
caiu diante do altar.
Silêncio.
Depois...
Gritos.
O
vestido branco tornou-se vermelho.
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Ninguém
compreendeu.
Os
convidados apenas balançaram as cabeças.
—
Está morta.
O
relógio do Carmo tocou seis vezes.
Naquele
mesmo instante começou uma tempestade jamais vista.
Relâmpagos
iluminaram a torre do Rosário.
As
portas bateram sozinhas.
As
velas apagaram.
E
o corpo de Cecília foi velado na sua casa no Rosário e depois levado para as carneiras
da Igreja do Rosário, onde famílias importantes eram sepultadas.
Gabriel
tentou abrir o túmulo.
Foi
impedido.
Durante
o enterro, jurou diante da cruz:
—
Nem a morte vai me impedir de encontrá-la.
A
cidade inteira ouviu.
E
talvez...
Alguém
mais tenha ouvido.
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Na
primeira sexta-feira da quaresma...
Gabriel
desapareceu.
Seu
cavalo voltou sozinho.
Coberto
de espuma.
A
sela ensanguentada.
Nunca
encontraram o corpo do oficial.
Dias
depois...
O
sacristão entrou nas carneiras.
Escutou
alguém chorando.
Uma
voz feminina dizia:
—
Gabriel... por que demorou?
Assustado,
correu.
Quando
voltou com outros homens...
As
criptas estavam vazias.
Mas
havia pegadas de ferradura na pedra.
No
pátio da igreja.
Como
se um cavalo tivesse caminhado entre os mortos.
O
padre mandou benzer o lugar.
Não
adiantou.
Na
sexta-feira seguinte...
As
ferraduras voltaram.
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T |
oda
meia-noite.
CLANC...
CLINC... CLANC...
Uma
ferradura batia diferente.
O
cavalo nunca era visto inteiro.
Primeiro
surgia uma fumaça branca.
Depois
um vento gelado.
Os
lampiões apagavam.
As
janelas tremiam.
E
então...
Uma
silhueta luminosa atravessava a Rua do Rosário.
Vestia
uniforme militar.
Chapéu
de aba larga.
Capa
preta esvoaçando.
O
rosto?
Ninguém
conseguia enxergar.
Era
apenas luz. Um vulto
Mas
os olhos...
Ardiam
como brasas.
Capítulo
V — A Sentinela da Cadeia
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O
soldado Joaquim fazia guarda na antiga cadeia, onde era o fórum antigo.
Era
homem destemido.
Ria
das histórias.
Na
terceira sexta-feira da quaresma ouviu:
CLANC...
CLINC...
A
ferradura.
Pegou
o rifle. Apontou. Nada.
O
som passou diante da guarita.
O
cavalo respirava.
Ele
sentia.
Mas
não via. Só um vulto.
Então
ouviu uma voz ao lado do ouvido.
—
Ela está esperando.
O
soldado caiu desmaiado.
Na
manhã seguinte...
Seu
cabelo estava completamente branco.
Nunca
mais fez guarda durante a quaresma.
Capítulo
VI — A Professora e a Janela
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O
jovem Antônio resolveu provar que tudo era mentira.
Escondeu-se
atrás da janela da tia. Velha professora conhecida na cidade.
Esperou.
Meia-noite.
Silêncio.
Depois...
O
vento parou.
Nem
uma folha se mexia.
Então
surgiu uma névoa.
A
rua desapareceu.
Ele
ouviu ferraduras. Olhou. Nada.
Apenas
fumaça.
De
repente...
BANG!
A
janela bateu violentamente.
O
vidro estilhaçou.
Quando
abriu novamente...
Havia
uma rosa branca sobre o peitoril.
Molhada
de sangue.
Sua
tia apenas disse:
—
Você olhou para quem não devia.
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A |
notícia espalhou-se.
Um
grupo decidiu seguir o cavaleiro.
Outro
esperaria no Beco de João Pinto.
Era
impossível escapar.
O
plano parecia perfeito.
Quando
o som apareceu...
Todos
correram.
O
barulho das ferraduras estava entre eles.
Mas
ninguém via cavalo algum.
A
fumaça atravessava pessoas.
Os
homens gritavam.
Alguns
juravam ver uma capa preta.
Outros
diziam enxergar uma mulher caminhando ao lado do cavalo.
Quando
os dois grupos se encontraram...
Nada.
Silêncio.
Então...
As
ferraduras reapareceram.
Agora
na Igreja da Luz. Onde fora enterrado.
Mais
rápidas.
Mais
fortes.
E
desapareceram atrás do portão.
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aquela
madrugada...
Três
rapazes decidiram entrar.
Desceram.
Escuro
absoluto.
Cheiro
de terra molhada.
Velas
apagavam sozinhas.
Encontraram
túmulos antigos.
Nomes
apagados.
Então
ouviram passos.
Ferraduras.
Dentro
das catacumbas.
O
cavalo surgiu lentamente. Branco. Transparente.
A
ferradura dianteira estava pendurada.
Produzia
faíscas azuis.
Sobre
ele estava Gabriel.
O
rosto era de um morto.
Mas
os olhos estavam vivos.
Ele
perguntou:
—
Vocês viram Cecília?
Ninguém
respondeu.
A
voz ecoou pelos corredores.
Depois
uma mulher cantou uma antiga ladainha.
Os
três fugiram.
Um
deles nunca mais falou.
Outro
enlouqueceu.
O
terceiro jurou nunca contar.
Mas
contou antes de morrer.
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|
A |
nos
depois...
Uma
freira permaneceu rezando durante toda a madrugada da quaresma.
Ela
viu algo.
Das
carneiras saiu Cecília.
Vestido
branco.
Sem
tocar o chão.
Carregava
um buquê seco.
Ela
caminhou até a porta da igreja.
Olhou
para a rua.
Esperou.
Então
escutou as ferraduras.
O
cavaleiro parou diante dela.
Pela
primeira vez...
Os
dois se olharam.
Ele
desceu do cavalo.
Tentou
abraçá-la.
Mas
ela desapareceu como fumaça.
Gabriel
gritou.
Um
grito tão doloroso que todos os cães da cidade começaram a uivar.
O
cavalo disparou sozinho.
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E |
xiste
uma sexta-feira em que ele nunca aparece.
A
última da quaresma.
Os
antigos diziam que nessa noite Cristo desce ao mundo dos mortos.
E
todas as almas precisam permanecer em silêncio.
Gabriel
também.
Mas
numa única ocasião...
Um
menino resolveu esperar.
Meia-noite.
Nada.
Uma
hora.
Nada.
Quando
voltava para casa...
Escutou
um choro vindo das carneiras.
Olhou
pela grade.
Viu
duas sombras de mãos dadas.
Subindo
a escada do Chafariz do Rosário.
O
relógio do Carmo tocou.
Os
sinos responderam.
As
sombras desapareceram.
Desde
então...
O
cavaleiro voltou a cavalgar.
Porque
descobriu que não era ainda o momento de partir.
Ainda
precisava encontrar a alma da noiva.
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A |
té
hoje, moradores antigos de Diamantina contam que, nas sextas-feiras da
quaresma, ninguém gosta de atravessar sozinho o caminho entre a Igreja do
Rosário e a Igreja da Luz.
Alguns
juram ouvir um cavalo invisível.
Outros
dizem sentir perfume de flores de laranjeira e da Dama da noite.
Há
quem encontre uma rosa branca caída na calçada.
E
muitos afirmam escutar um som metálico impossível de confundir:
CLANC...
CLINC... CLANC... CLINC...
A
ferradura solta.
Porque
o Cavaleiro da Luz continua percorrendo as ruas de pedra de Diamantina,
atravessando o Largo do Mercado, o antigo Chafariz, o Macau de Cima e
desaparecendo nas catacumbas da Igreja da Luz.
Ele
não cavalga atrás de tesouros.
Nem
de vingança.
Cavalga
movido pelo amor que nem a morte conseguiu apagar.
E
dizem os mais velhos que, se alguém tiver coragem de seguir suas ferraduras até
o fim e ouvir seu chamado sem olhar para trás, poderá ver, por um breve
instante, Gabriel e Cecília reunidos sob uma luz branca — antes que ambos
desapareçam novamente entre as sombras eternas das igrejas de Diamantina.
Nas
noites frias e nebulosas da quaresma, você pode dar de cara com o cavaleiro nas
ruas sombrias e deserta da cidade.
Há
relatos de pessoas que escutam nas noites de quaresma o trotar de cavalo
passando pelas ruas, mas não se vê o cavalo.
Acredita
quem quiser.