A
LENDA DO CAVALEIRO DA GLÓRIA
ERICK JOHAN NS DE MEIRA
Baseado na tradição oral de Diamantina (MG),
ambientado entre o final do século XIX e o início do século XX.
Diamantina sempre dormiu cedo. Quando os
últimos lampiões a querosene se apagavam e a neblina descia da Serra dos
Cristais, um silêncio pesado cobria as ruas de pedra. Apenas o vento
atravessava os becos, fazendo ranger janelas antigas e balançando as cruzes das
carneiras.
No Largo do Seminário a noite fria e um denso
nevoeiro que cobria a praça e com poucas casas e mal iluminada pelos poucos lampiões
e até improvisado com lamparinas de óleo de candeia para iluminar até certas
horas e aos poucos se apagavam tornando a praça iluminada só nos dias de lua.
Mas havia uma hora em que ninguém queria
estar desperto.
Duas horas da madrugada. Três horas da
madrugada.
Os velhos diziam que aquele era o instante em
que as almas esquecidas deixavam as igrejas, caminhavam pelas ladeiras e
procuravam quem ainda pudesse rezar por elas.
E existia apenas um homem capaz de ouvi-las. Um
padre. Um cavaleiro. Um morto.
Chamavam-no de O Cavaleiro da Glória.
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Seu nome era Padre Antônio da Glória. Era
sacerdote do antigo Seminário Episcopal de Diamantina, homem respeitado por
toda a cidade. Diziam que jamais recusava um chamado para visitar um moribundo
ou celebrar uma missa pelos esquecidos.
Havia, porém, uma promessa que poucos
conheciam.
Todas as sextas-feiras, antes do amanhecer,
ele celebrava uma Missa das Almas, dedicada aos mortos sem família, aos
escravos abandonados, aos garimpeiros desaparecidos nas minas e às crianças
enterradas sem nome.
O povo acreditava que, graças às suas
orações, muitas almas encontravam descanso. E, por isso, sempre o viam chegar
sozinho. Montado em seu cavalo baio. Vestindo batina negra. Carregando uma
lanterna.
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Quando chegava ao Seminário, abria lentamente
o velho portão de ferro, ás quatro e trinta horas da noite, para iniciar a
missa as 5 horas da manhã.
CREC...
Entrava.
Prendia o cavalo.
E deixava o portão aberto para quem desejasse
assistir à missa.
Sempre saudava os fiéis.
— Bom-dia... Deus esteja convosco.
Era um homem de paz.
Até a noite em que tudo terminou.
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Era uma madrugada fria e chuvosa.
Uma tempestade desceu sobre Diamantina.
Os relâmpagos iluminavam a Serra de São Francisco
e Santo Antônio
Padre Antônio seguia apressado.
As almas, dizia ele, não podiam esperar.
Ao atravessar uma curva próxima ao Seminário,
o cavalo empinou violentamente.
Um trovão estourou sobre a cidade.
O animal escorregou nas pedras molhadas.
O padre foi lançado contra uma enorme muralha
de pedra pontuda.
Seu pescoço quebrou.
Morreu ali.
Sozinho.
A lanterna apagou.
O cavalo fugiu pela escuridão.
Na capela...
A missa nunca foi celebrada.
E as almas permaneceram esperando.
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Na noite seguinte...
O sineiro ouviu cantos.
Pensou que algum padre estivesse rezando.
Entrou.
A igreja estava vazia.
Mas o altar estava iluminado.
As velas acesas.
O missal aberto.
E uma voz grave ecoava pela nave.
Em latim.
Uma missa inteira.
Quando tentou aproximar-se...
As páginas começaram a virar sozinhas.
O órgão tocou uma nota longa.
E todas as velas apagaram ao mesmo tempo.
O sineiro saiu correndo.
Nunca mais entrou sozinho naquela igreja na
madrugada.
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Dias depois...
Os moradores ouviram novamente o galope.
TOC... TOC... TOC... TOC...
As ferraduras subiam lentamente pela rua.
O cavalo surgiu envolto por uma névoa branca.
Sem cavaleiro.
Então...
Uma sombra apareceu montando nele.
O padre.
A batina balançava sem vento.
O rosto era pálido como mármore.
Os olhos brilhavam com uma luz azulada.
Ele desmontou.
Abriu o portão.
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Puxou a montaria.
Prendeu o animal.
E bateu o portão com tanta força que toda a
rua despertou com o eco.
BANG!
Depois entrou na capela.
As portas fecharam sozinhas.
E começou a missa.
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Os vizinhos passaram a ouvir uma cantoria
impossível.
Não era voz de gente viva.
Era um coral distante.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Centenas de vozes rezando juntas.
Alguns juravam escutar nomes antigos sendo
chamados.
Outros ouviam correntes.
E havia quem escutasse crianças respondendo:
Amém.
Quando amanhecia...
A igreja estava completamente vazia.
Mas o cheiro de incenso permanecia no ar.
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Entre todos os moradores, ninguém era mais
devota que Dona Maricota do Felisbino, vinda de Gouveia. Sempre que visitava
Diamantina hospedava-se na casa dos parentes. Jamais perdia a missa da
madrugada.
Naquela noite acordou antes do horário. Pensou
ouvir passos da prima Quita.
Pegou o rosário. Vestiu o xale. E saiu.
A cidade dormia.
Os lampiões tremeluziam em pequenas brasas e
um denso nevoeiro tomava conta do Largo do Seminário.
Ela chegou diante do Seminário.
Estranhou.
A porta estava fechada.
Esperou.
O silêncio era absoluto.
Então...
O galope começou.
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O cavalo apareceu na esquina.
Devagar.
A cabeça baixa.
Os cascos não faziam eco.
Pareciam bater dentro do peito de Maricota.
O padre aproximou-se.
Sem olhar para ela.
Abriu o portão.
Entrou.
Puxou o cavalo.
Prendeu-o.
E bateu violentamente o portão.
CRAAANG!
Maricota sorriu.
Esperava ouvir:
— Bom-dia, minha filha.
Nada.
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O padre entrou na igreja.
Sem dizer palavra.
Ela tentou segui-lo.
Mas o portão não abria.
Parecia pesar toneladas.
Então ouviu uma voz dentro da igreja.
Começou a missa.
Mas era diferente.
O latim parecia vindo de muito longe.
Como se centenas de pessoas rezassem debaixo
da terra.
Ela entrou... estranhou as pessoas que
estavam na missa, ninguém conhecido.
Pensou, como era madrugada não era de esperar
conhecidos.
A missa terminou.
Silêncio.
Nesse instante...
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O relógio do Seminário bateu.
DONG... DONG...
Três horas.
Maricota gelou.
A verdadeira missa acontecia às cinco e meia.
Ela percebeu algo estranho.
Uma das pessoas que estava sentada no banco
da frente virou o rosto para ela, e o que ela viu? Um rosto pálido e olhos
esbugalhados, assustando e arrepiando os seus cabelos e gelando o seu corpo.
Estava ouvindo uma celebração dos mortos.
Correu.
As pedras pareciam prender seus pés.
Atrás dela o cavalo voltou a galopar.
Mais rápido.
Mais perto.
Ela rezava sem parar. E tentava gritar, mas a
voz não saía, algo prendia.
Quando chegou em casa...
A porta bateu sozinha.
E o galope cessou.
Na semana seguinte, um antigo sacristão
resolveu esconder-se dentro da igreja.
Queria descobrir o mistério.
Às três horas...
As portas abriram.
Entraram dezenas de figuras transparentes.
Velhos escravos.
Garimpeiros cobertos de lama.
Mulheres de vestido branco.
Crianças segurando velas.
Todos ajoelharam.
O padre iniciou a missa.
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Quando ergueu a hóstia...
Os fantasmas ficaram iluminados.
O sacristão viu rostos sem olhos.
Caveiras cobertas por véus.
Mãos atravessando bancos.
E ouviu Padre Antônio dizer:
— Hoje rezaremos pelos que morreram sem
perdão.
As almas responderam juntas.
O som fez as paredes tremerem.
O sacristão desmaiou.
Foi encontrado apenas ao amanhecer.
Os malfeitores acusaram o sacristão de ter
bebido o vinho da Sacristia e por isso teve delírios.
Mas, há os que dizem que o padre celebra a
missa das almas justamente na hora que morreu ás três horas da madrugada.
Depois daquela noite, muitos moradores
passaram a ouvir passos antes da missa.
Uma procissão invisível.
Velas caminhavam sozinhas, pelas ruas e becos
da cidade, alguns pensavam que era a procissão das Cinzas que saía toda Quarta
feira de Cinza da Igreja da Luz percorrendo a madrugada.
Rosários apareciam sobre o chão.
Flores brotavam diante da igreja e
desapareciam ao amanhecer.
Quem seguia aquelas luzes nunca conseguia
chegar perto e nem ver os rostos.
Era como caminhar atrás da neblina, dos
vultos.
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Um jovem incrédulo decidiu esperar escondido.
Quando o padre chegou...
Correu.
Segurou o portão antes que fosse fechado.
Conseguiu entrar.
A igreja parecia diferente.
Muito maior.
Cheia de bancos ocupados.
Mas todos os fiéis eram transparentes.
O padre virou lentamente a cabeça.
Pela primeira vez alguém viu seu rosto.
Estava ferido.
O sangue escorria da testa.
Os olhos brilhavam como brasas azuis.
Ele perguntou:
— Você veio rezar... ou interromper a missa?
O rapaz tentou responder.
Nenhuma palavra saiu.
As almas levantaram ao mesmo tempo e fixaram
os seus rostos empalidecidos e olhos pretos.
Ele fugiu desesperado e apavorado
Na manhã seguinte seus cabelos estavam
completamente brancos.
Jamais voltou à igreja durante a madrugada.
Os moradores antigos de Diamantina afirmam
que o Cavaleiro da Glória continua chegando nas madrugadas mais frias do ano. Primeiro
ouve-se o galope. Depois o ranger do velho portão. Em seguida o estrondo de
ferro batendo.
E logo começam os cânticos. Nunca às cinco e
meia.
Sempre às três horas da madrugada.
Dizem que Padre Antônio ainda celebra a missa
que a morte interrompeu naquela noite de quaresma. Porque fez uma promessa
diante de Deus. E promessas feitas por um sacerdote não terminam com a morte. Terminariam
apenas quando a última alma esquecida de Diamantina encontrasse descanso.
Até lá...
Quem passar diante do Seminário na alta
madrugada talvez escute um coral invisível rezando dentro da igreja e as luzes
acesas.
E, se tiver coragem de olhar pela porta no
exato instante em que ele se fecha, poderá ver um cavalo preso ao antigo
mourão...
Esperando silenciosamente o padre terminar
mais uma Missa das Almas.